Réseau Syndical International de Solidarité et de Luttes


lundi, 19 octobre 2020

 
 

 

Governo Alemão e Volkswagen : populismo e repressão na pandemia na África do Sul

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Por Cesar Neto

O governo alemão decidiu, através do Ministério Federal para Cooperação e Desenvolvimento Econômico Alemão (BMZ), em conjunto com a Volkswagen sul-africana resolveram apoiar a luta contra o Coronavirus em Porto Elizabeth, na África do Sul.

A iniciativa foi apresentada para a imprensa no mês de junho. E um importante jornal local noticiou com o seguinte título "A Volkswagen converteu uma antiga fábrica de peças em um enorme hospital para Covid-19 em apenas 7 semanas".

Os meios de comunicação deram muito destaque a essa notícia. Afinal, em um país em que é preponderante a medicina privada, ou seja, privilegia aqueles que podem pagar, uma notícia dessas é recebida com grande aprovação popular. Inclusive, porque a situação em que se encontra o principal hospital público da cidade de Porto Elizabeth, onde está localizada a fábrica Volks, está em situação calamitosa.

Como se deu essa ajuda tão desinteressada ?

Foram disponibilizados 125 milhões de rand (a moeda local) ou 6,52 milhões de euros. Dos quais o Estado alemão contribuiu com 80% e a Volkswagen com 20%. Além disso, a empresa fez uma doação de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para os profissionais de saúde .

Consta que a Volkswagen adquiriu EPIs para os profissionais de saúde na seguinte proporção : 50 mil máscaras N95 ; 65 mil aventais descartáveis ; dois milhões de luvas descartáveis ; mil viseiras ; 200 termômetros infravermelhos digitais ; e 190 dispositivos para monitorar o conteúdo de oxigênio no sangue e no pulso.

A outra parte da ajuda se deu na concessão de um espaço de uma antiga fábrica da Volks que estava desativada para a construção de um hospital de emergência. A Volkswagen, segundo o site do Ministério Federal para Cooperação e Desenvolvimento Econômico Alemão (BMZ), cedeu as instalações até março de 2021 , ou seja, por menos de um ano.

Ajuda desinteressada ou jogada de marketing ?

Historicamente a Volkswagen sul-africana exige dos trabalhadores uma jornada de trabalho extremamente longa se comparada com as jornadas na Alemanha. Um estudo do ano de 2.000 realizada pelo Comitê Mundial de Empresa dos Trabalhadores do Grupo Volkswagen, mostra que em Wolfsburg, na Alemanha, a jornada anual era de 1.430 horas para cada trabalhador. Enquanto isso, o trabalhador sul-africano trabalhava 1.686 horas anuais, ou seja, 256 horas a mais por ano.
A esses dados, alguns poderão dizer : são antigos ! E nós dizemos sim, mas foram feitos antes da flexibilização total de direitos dos trabalhadores realizados nos governo do CNA-Cosatu-PC da África do Sul. Isto quer dizer que hoje as condições são ainda piores e as jornadas e intensidade da produção são produção são ainda maiores.

A super exploração da classe trabalhadora permite a Volkswagen na África do Sul, e no mundo, uma taxa de lucro exorbitante. Nesse sentido, podemos dizer que a "doação" de 190 dispositivos para monitorar o conteúdo de oxigênio no sangue e no pulso, os famosos oxímetros, são gastos irrisórios na medida em que um esses aparelhos custam em torno de 20 dólares. E o mesmo com o investimento para comprar 200 termômetros infravermelhos digitais que no mercado varejista custam de 50 a 70 dólares.

Como se não bastasse, a então ex fábrica de autopeças que estava abandonada, passou por um processo de maquiagem. E uma maquiagem muito mal feita que diríamos que na medida em que "o piso de concreto ainda é marcado por linhas amarelas onde as máquinas ficavam" .

Não há dúvidas que a primeira hipocrisia do governo alemão e da Volkswagen foi a utilização da pandemia para fazer markenting e se apresentarem como salvadores da saúde pública sul-africana.

O povo sul-africano não precisa de hospitais mal feitos e improvisados a curto prazo e que depois de março será restituído à empresa. Não precisa de que comprem EPIs. Não precisa de jogadas de marketing que só fingem se importarem com o povo sul-africano.

O povo sul-africano realmente precisa é taxar as grandes fortunas ; Controlar as remessas de lucros do capital estrangeiro ; E com essas divisas deste conjunto de medidas pode garantir a saúde pública, gratuita e de qualidade para toda a população tanto durante a pandemia quanto depois, de forma permanente.

A histórica perseguição aos trabalhadores

Os alemães têm uma longa tradição de desrespeito as populações africanas. Na Namíbia, um país ao lado da África do Sul, entre 1904 e 1908, foi invadido pela a Alemanha e implantou o clima de terror. E mataram 80.000 Hereros, um povo originário. O mesmo ocorreu na Tanzânia onde mataram entre 200 e 250 mil pessoas, no mesmo período.

A Volkswagen, na própria Alemanha, se utilizou do nazismo para produzir carros com trabalho escravo. E ainda no Brasil, não foi preciso um regime fascista. A Alemanha e Volks apoiaram um regime semifascista, a Ditadura-Empresarial-Militar, para reprimir os trabalhadores, esconder criminosos nazistas e utilizar mão de obra escrava na Fazenda Rio Cristalino, no Estado do Pará.

A Volks persegue na África do Sul seus trabalhadores que lutam contra o Covid 19

No dia 4 de maio os trabalhadores voltaram a produzir depois do lockdown decretado pelo governo no dia 27 de março. E para voltar ao trabalho deveria ser cumprido todo um protocolo de prevenção do Covid 19.

Então, as fábrica foram autorizadas a operar com apenas 50% da força de trabalho para poder garantir as medidas de protocolo de distanciamento físico no local de trabalho.

A Volkswagen impôs a utilização total, de 100%, dos trabalhadores, operando nos dois turnos, e dessa maneira impedindo o protocolo de distanciamento físico necessário e obrigatório. O porta voz do sindicato nacional Numsa, Phakamile Hlubi Majola, afirmou que "nenhuma avaliação de risco foi realizada na reabertura da fábrica".

Mesmo depois que alguns trabalhadores testarem positivo para COVID-19, nenhuma limpeza profunda foi realizada na fábrica ou paralisação das atividades nos locais, o que levou à rápida disseminação da infecção entre os trabalhadores. O NUMSA alegou ainda, que muitos trabalhadores que tiveram que se isolar foram chamados de volta à linha de produção, antes mesmo de seus resultados de teste serem confirmados como negativos .

Em entrevista aos meios de comunicação, Irvin Jim, secretário geral do Numsa e ex candidato a presidente pelo Workers Party, afirmou que “Em vez de abordar suas ações ilegais e irresponsáveis, a empresa insistiu em dizer que os trabalhadores estavam sendo infectados em suas comunidades e não no trabalho”.

Na África do Sul os trabalhadores têm um limite de dias para ficarem doentes durante o ano. O período que passar desse limite é descontado diretamente das férias e dos salários.

Irvin Jim acusa a Volkswagen de manipular os acordos para concessão de licenças médicas ao se negar a reconhecer que os trabalhadores foram infectados dentro da fábrica, principalmente por não adotar o protocolo de distanciamento. Nesse caso, Jim afirma que a Volks considera que o trabalhador “contraiu o vírus fora do local de trabalho, não tem direito a licença médica especial e os períodos de isolamento ou de quarentena serão descontados das férias anuais normais”.

Nessa situação, acuados, os trabalhadores para protegerem seus poucos ganhos, caso testem fosse positivo, e fossem colocados em quarentena ultrapassando o limite de concessão de licenças médicas anuais, então os trabalhadores optaram por não revelar os sintomas e continuaram trabalhando, desenvolvendo a doença dentro da fábrica e contaminando os demais.

Assim, em menos de trinta dias, depois de aberta a fábrica aconteceu a primeira morte de trabalhador. Isso ocorreu no dia 3 de junho. E no dia 17 de julho de um grupo de 546 trabalhadores analisados 120 foram isolados por testarem positivo.

A máscara da Volkswagen e do governo alemão caiu quando os trabalhadores tentaram expor suas preocupações ao gerente de Recursos Humanos (RH) e ele se recusou a atendê-los dizendo que isso "representava um risco para a saúde dele", confirme disse Irvin Jim.

Quando os trabalhadores perderam a paciência com os desmandos da Volks, somados a ameaça de morte pelo Covid 19 dentro da fábrica, o fizeram vencer o medo, os trabalhadores realizaram então uma manifestação. Devemos considerar o que significa fazer uma manifestação na África do Sul, um país capitalista periférico, dirigido pelos administradores coloniais do CNA-Cosatu-PC, na qual os trabalhadores não têm liberdade legal para fazer greves, pois antes eles devem "avisar e pedir" a própria empresa para paralisarem as atividades de produção.

A Volks, que fez marketing com o Coronavirus, acusou seus trabalhadores por fazerem greve e aproveitou-se para demitir 14 delegados sindicais. A Volks só não esperava que seus súditos entrassem em rebelião, porém para os trabalhadores era a gota d’água é necessário e urgia a luta em defesa de suas próprias vidas, e ameaçaram paralisar de fato a produção, sem ou com aviso prévio. Desta vez, acuada, a Volks readmitiu aqueles que lutavam por suas vidas.

Na verdade, a Volks e o governo alemão seguem com a mesma política praticada há mais de 100 anos. Na Namíbia e Tanzânia, onde os alemães praticaram genocídio e se negam a reconhecer os seus crimes. No Brasil, a Volkswagen, apoiou a ditadura, escondeu nazistas na sua fábrica, organizou a repressão política a serviço da ditadura dentro e fora da fábrica, e como se isso ainda fosse pouco, usou a mão de obra escrava na Fazenda do Rio Cristalino, no Pará e passados 35 anos do final da Ditadura-Empresarial-Militar se negam a reconhecer suas graves violações aos Direitos Humanos.

Fazemos nossas as palavras do jornal sul-africano Mail and Guardian : "no vocabulário dos alemães. Parece que as palavras ’genocídio’ e ’reparações’ ainda não figuram no seu léxico oficial sobre o assunto. Mas não se preocupem, podemos ajudar : tentem ’Völkermord’ e ’Wiedergutmachung’ .