Rede Internacional Sindical de Solidariedade e Lutas


quinta-feira, 13 de Agosto de 2020

 
 

 

Setor aéreo internacional se organiza e discute estratégias de ação em meio à crise sanitária mundial

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Trabalhadores e trabalhadoras do setor aeronáutico, ativistas e sindicalistas de várias organizações que compõem a Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas realizaram uma videoconferência, no dia 21 de abril, para discutir o cenário econômico e a crise sanitária em contexto de pandemia do novo coronavírus.

Dando ênfase ao setor da aviação, o encontro serviu para debater estratégias de proteção à saúde, bem como ao emprego e salário dos trabalhadores. Além disso, o esforço e conjunto buscou alinhar uma saída para crise que seja capaz de garantir o respeito aos trabalhadores e atender as necessidades reais da sociedade.

Outro ponto destacado pelo setor é a necessidade de lutar por um transporte aéreo público a serviço da comunidade que derrube as tentativas de privatização e construa um sistema em que, de acordo com a deliberação do grupo, “a recuperação seja feita através de uma gestão pública dos aeroportos, com uma única empresa de serviços aeroportuários, com taxas aeroportuárias que retornem investimentos no setor, com companhias aéreas de bandeira nacionalizadas e com a gestão interna de todas as atividades, sejam elas de terra ou de voo”.

A Rede Internacional apoia a iniciativa de organização internacional do setor neste momento de crise e reforça o chamado para que a categoria siga mobilizada por direitos, pela vida acima dos lucros, pelo meio ambiente e por melhores serviços para a comunidade.

Abaixo segue na íntegra o comunicado elaborado após a reunião:

SETOR AÉREO INTERNACIONAL: PARA SAIR DA CRISE É PRECISO RETOMAR COM UM TRANSPORTE AÉREO PÚBLICO, SUSTENTÁVEL E QUE ESTEJA A SERVIÇO DA COMUNIDADE

No dia 21 de Abril, trabalhadoras, trabalhadores, ativistas e sindicalistas de várias organizações sindicais, em diversos países e cidades (França, Itália, Portugal, Espanha), reuniram-se online para analisar, em conjunto, a situação geral econômica e sanitária mas também para discutir a situação específica do setor da aviação – setor aeroportuário no que diz respeito à proteção da saúde, bem como ao emprego e aos salários dos trabalhadores, a fim de refletir em conjunto uma saída para crise que garanta o respeito pelos trabalhadores e tenha como centro as reais necessidades da sociedade.

Estado de emergência para os trabalhadores, uma oportunidade para os governos e os patrões nos reprimirem

Governos de vários países instauraram o “estado de emergência”, uma medida que permitiu centralizar ao máximo o poder de decisão, mas que, desde o início, foi utilizado para atacar os trabalhadores e as suas organizações democráticas de luta. Em muitos estados a quarentena obrigatória, “fique em casa”, foi já com austeridade, por outro lado muitos operários das fábricas e trabalhadores dos serviços essenciais foram obrigados a ir trabalhar, quase sempre desprovidos de equipamentos de proteção pessoal necessária. Constrangidos em responder às exigências dos grandes empresários que não queriam absolutamente abdicar dos seus lucros.

Neste contexto, todas as formas de manifestações foram proibidas, ainda pior, em vários países, o direito à greve foi suspenso em determinados setores. Em Portugal a medida foi determinada de maneira a poder ser aplicada a todas as categorias de trabalho.

Estamos, portanto, numa situação em que a quarentena é obrigatória para a população mas não para o lucro dos patrões que, com a ajuda dos governos e dos grandes sindicatos, continuam a acumular capital, pondo em risco a saúde dos trabalhadores e das suas famílias, sem lhes dar a oportunidade de fazerem greve. Há também vários sinais de mal-estar e crise social, que poderão explodir nas próximas semanas: falamos dos trabalhadores afastados ou despedidos, dos trabalhadores precários, de trabalhadores independentes que são obrigados a ficar em casa em condições econômicas muito instáveis.

Milhares de Milhões de euros para os patroes, miséria para os trabalhadores e trabalhadoras

No debate, ficou evidente que os diversos governos atuaram nesta crise desde o início para salvar, em primeiro lugar, a montanha de capital acumulada pelas fabricas e grandes empresas. O exemplo mais evidente é, sem dúvida, os instrumentos que estes utilizaram para isentar os patrões do pagamento de salários em que, nos vários países, mudam os nomes mas a essência permanece a mesma: na França chômage partiel, na Itália cassa integrazione, em Portugal lay-off, na Espanha Erte.

Estes instrumentos têm sido constantemente utilizados para financiar as empresas em “dificuldade”, aliviando-as dos encargos com o pagamento dos impostos e dos salários dos trabalhadores e com isso colocando o pagamento desta conta sobre as nossas costas. Deixam esses trabalhadores em situações muitos difíceis (diminuição dos salários ou até mesmo demissões) onde tudo piora durante a pandemia Covid-19. E são os trabalhadores precários que pagam o preço mais alto desta crise, eles que durante anos geraram riqueza aos patrões sem ter nenhuma garantia sobre as suas condições de trabalho, hoje, em plena emergência, foram abandonados à própria sorte, com pouco ou nenhum auxilio por parte dos governos.

Foi também salientado o “roubo”, por parte das empresas, das férias dos trabalhadores, obrigados a utilizá-las no inicio da crise quando começou a diminuir a operação: para além de serem um direito econômico, as férias dos trabalhadores são o instrumento para conciliar o trabalho com a vida privada, ainda mais importante para as mulheres e as mães trabalhadoras.

Por último foi considerado preocupante a utilização de algumas modalidades de trabalho, claramente necessários nesta fase de contenção da pandemia, como o “smart working” e a robotização de alguns processos relativos às fases de embarque, check-in, drop-off, controles de segurança, etc. Contudo preocupante porque poderão ser mantidas e incentivadas mesmo após a crise sanitária e, com a desculpa da crise econômica, colocarão ainda mais em risco os postos de trabalho.

Superaremos a crise mudando o sistema

Sem dúvida, a discussão mostrou que o nosso objetivo não é voltar à normalidade, isso significaria retomar a situação de precarização, exploração e opressão gerada por décadas de liberalização do mercado, privatizações e terceirizações das atividades. Tudo isto já não pode ser permitido, há anos que as trabalhadoras e os trabalhadores do setor aéreo recebem salários que não acompanham a inflação, com contratos cada vez mais instáveis, cargas horárias desreguladas, reduzidas proteções de saúde e segurança, problemas estes que aumentam brutalmente neste momento de crise acelerada pelo Covid-19.

A única saída viável para esta crise, que atingiu duramente todo o transporte aéreo, deve colocar no centro do seu projeto a revisão completa deste sistema baseado na “superprodução dos céus” onde é o lucro que decide tudo, sem considerar as necessidades reais dos trabalhadores, da sociedade e do ambiente. Temos que lutar para impor que a recuperação seja feita através de uma gestão pública dos aeroportos, com uma única empresa de serviços aeroportuários, com taxas aeroportuárias que retornem investimentos no setor, com companhias aéreas de bandeira nacionalizadas e com a gestão interna de todas as atividades, sejam elas de terra ou de voo. A recuperação deve ser feita com um transporte aéreo público que esteja ao serviço dos trabalhadores e que não tenha fins lucrativos, garantindo assim, todos os postos de trabalho, inclusive através da redução do horário de trabalho pelo mesmo salário, mas, acima de tudo, reestruturando a sua superprodução de voos, garantindo simultaneamente preços justos para todos os passageiros, tendo em vista o respeito pelo ambiente e pelo clima já que o transporte aéreo continua a ser um importante contribuinte para a poluição ambiental.

Terminamos o documento expressando toda o nosso agradecimento, apoio e solidariedade aos trabalhadores da saúde que, abandonados pelas instituições, foram obrigados a trabalhar em condições desumanas durante estes meses de emergência sanitária, muitas vezes sem os dispositivos de segurança adequados, causando a morte de centenas de trabalhadores em todo o mundo. Voltaremos o mais depressa possível para lutarmos juntos a eles e exigirmos justiça!

CUB TRASPORTI – AIRCREWCOMMITTEE (ITALY)
CGT IBERIA (SPAIN)
SUD AÉRIEN– SOLIDAIRES (FRANCE)
SOS HANDLING (PORTUGAL)